ENTREVISTA CEFORTE

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Pr. Abdruschin S. Rocha dá entrevista ao CP sobre os novos rumos do CEFORTE

Entrevista na íntegra concedida ao CP

CPIMW - Em termos gerais, qual é o diferencial do 
CEFORTE? O que os futuros alunos podem esperar?

Pr. ABDRUSCHIN - Acredito que o CEFORTE cumpriu, ao longo da história da IMW, um papel extremamente importante na formação de obreiros. Não se pode ignorar o fato de que muita gente boa, que hoje milita na liderança da denominação, é fruto do labor dessa instituição. Digno de nota também é o imenso esforço empreendido por aqueles que lutaram para que ela cumprisse o seu papel na formação de obreiros, numa época em que não se tinha tantos recursos como temos hoje. Pense em quantos professores trabalharam (e muitos ainda o fazem) sem nada receber, simplesmente por amor à causa, além de o terem feito em condições desfavoráveis! Entretanto, os tempos são outros, as pessoas também — e exatamente por isso temos a grande tarefa de levar o CEFORTE a outro “estágio”, de maneira que continue sendo relevante diante das novas demandas e dos novos desafios. Essa é a missão a que me proponho, juntamente com toda a equipe do CEFORTE. Portanto, um diferencial da instituição é o fato de ter “colocado os pés” num novo tempo, e de estar consciente de que mesmo que esteja nos estágios iniciais dessa nova trajetória, sabe aonde quer chegar. Esse “novo tempo” a que me refiro já se materializa em algumas mudanças significativas. Cito apenas algumas: 1ª) A mudança na concepção do curso e consequente reestruturação da matriz curricular, visando a modernização de nossa proposta. Vivemos um novo tempo, com novas perguntas e novos desafios. Isso significa que também precisamos dar novas respostas, e isso de alguma forma se evidencia em novas disciplinas e novos enfoques; 2ª) A implantação do EAD (Ensino à Distância), que coloca o CEFORTE definitivamente em conexão com as novas modalidades da educação e possibilita o alcance de um número maior de pessoas que, de outra forma, nunca poderiam realizar um curso teológico; 3) O incentivo e estabelecimento de uma cultura de formação de professores com mestrado e doutorado, que eleve o nível do nosso curso; 4) A realização (num futuro próximo) de congressos de teologia voltados para a formação de nossos alunos e atualização de nossos obreiros. Então, acho que conquanto lidemos ainda com muitas limitações — algumas das quais resultantes do longo tempo sem mudanças necessárias —, os alunos podem esperar melhorias significativas e paulatinas na qualidade do curso.

 

CPIMW - Gostaria que o senhor falasse sobre a possibilidade de convalidação e reconhecimento pelo MEC. Há uma previsão de quando isso pode acontecer? O quanto isso acrescenta para o CEFORTE?

Pr. ABDRUSCHIN - A nova matriz curricular, que está sendo sugerida ao Colégio Episcopal neste momento, procura contemplar as principais exigências do MEC no que respeita a um curso de teologia. Nossa intenção é nos prepararmos para a possibilidade futura de um reconhecimento de nosso curso. É claro que o reconhecimento do curso de teologia do CEFORTE é algo que precisa ser discutido com calma e serenidade, a fim de que seja uma decisão bem tomada. Não acredito que estejamos prontos para isso no momento, pois demandaria mudanças mais ousadas, como, por exemplo, investimentos por parte da denominação, algo que em tese neste momento ainda não poderíamos fazer. Mas, nossas ações agora já pretendem antecipar o futuro, pois acredito que não está muito distante o tempo em que o reconhecimento de cursos de teologia será inevitável às instituições que quiserem sobreviver enquanto tais. Neste momento, não dispomos de muitas faculdades de teologia com cursos reconhecidos pelo MEC, mas no futuro elas se proliferarão, exigindo das instituições cujos cursos ainda não sejam reconhecidos a decisão de se adequarem ou serem extintas. Afinal, quem não prefere fazer um curso que, além de lhe dar o suporte necessário do ponto-de-vista do preparo teológico, também o insere no (ainda) pequeno grupo de pessoas que possuem um curso superior no Brasil?

Entretanto, apesar de ainda não dispormos de um curso reconhecido pelo MEC, temos o recurso da Convalidação. A “lei das convalidações” foi criada pelo MEC exatamente para fazer justiça aos muitos brasileiros portadores de diplomas de teologia não reconhecidos. Trata-se de um curso que representa 20% da carga-horária geral de um “Bacharelado em Teologia”, e que deve ser feito em uma instituição credenciada pelo MEC. É claro que essa lei foi criada para atender temporariamente a uma demanda reprimida, e quando o MEC entender que tal demanda já foi satisfeita, a convalidação não terá mais razão de existir. Enquanto isso, aumenta paulatinamente o número de instituições de teologia que buscam o reconhecimento para seus cursos, o que contribuirá ainda mais para a extinção, no futuro, das convalidações. O CEFORTE, levando em conta esse cenário, está readequando o seu curso. Na configuração antiga, os alunos precisavam cursar 4 anos (Bacharelado) e, caso desejassem um curso reconhecido pelo MEC, precisariam cursar mais 7 meses a 1 ano (Convalidação). Na nova configuração na qual estamos trabalhando, desmembramos o antigo “Bacharelado em Teologia” (4 anos) em dois cursos: ao primeiro chamamos de “tronco comum” (3 anos); o segundo, um “curso complementar”, figura como uma “especialização” dentro da graduação (+1 ano). A novidade é que esse curso de 1 ano pode ser feito em áreas distintas, à escolha do aluno; a princípio vislumbramos três possibilidades: a) Teologia Pastoral, para aqueles que desejarem apenas servir no ministério pastoral; b) Missiologia (numa parceria com a AGEMIW), para os que desejarem servir como missionários e C) a Convalidação, para aqueles que desejarem um curso reconhecido pelo MEC (ficando a cargo do aluno procurar uma instituição credenciada para tal). No futuro, ampliaremos o número de “cursos complementares”. Os dois cursos equivalem ao nosso antigo “Bacharel em Teologia” (duração de 4 anos). Ou seja, nessa nova configuração, o aluno tem a possibilidade de em 4 anos ter um curso reconhecido pelo MEC.

 

CPIMW - Pastor, a valorização do ensino teológico tem crescido, mas ainda vemos casos de pastores que assumem o ministério sem ter passado por um seminário. Em sua opinião, quais podem ser as consequências dessa falta de formação?

Pr. ABDRUSCHIN - Como em qualquer ministério, o fato de você ter determinado dom não o isenta de se preparar adequadamente para usá-lo da melhor maneira possível. Se você acredita que tem dons relacionados à música, por exemplo, isso não quer dizer que não precise estudar música. Conheço muitas pessoas que possuem incrível habilidade nessa área, mas sua performance tem um limite, e esse limite existe exatamente em função da falta de estudo na área. Pense em como essa pessoa poderia usar com maior intensidade o seu dom se o aliasse ao estudo! O mesmo acontece com o ministério pastoral. Existem muitos bons pastores que nunca estudaram teologia, embora isso não os tenha impedido de terem um ministério bem sucedido. Em alguns casos (bem específicos), eu diria que um curso de teologia até atrapalharia. Além disso, sabemos que um curso de teologia não garante que alguém seja um bom pastor. Entretanto, as exceções não inviabilizam a regra. O fato é que estamos vivendo numa cultura em que a informação e o conhecimento estão cada vez mais democratizados, cada vez mais acessíveis. Então, eu diria que aqueles a quem ainda erroneamente chamamos de “leigo”, não são mais tão leigos assim. Em alguns casos, as “ovelhas” são muito melhor preparadas em todos os sentidos que os seus pastores. A palavra “leigo” nos foi transmitida por uma cultura (Idade Média) na qual as pessoas, de fato, eram desprovidas de conhecimento, em todos os sentidos. Eram “leigas” porque em nome de Deus e da centralidade da igreja lhes era negado o acesso ao conhecimento. Não vivemos mais esse tempo, e o “leigo” e “coadjuvante” de ontem quer ser o “protagonista” de hoje. Isso quer dizer que o simples dom e a boa vontade, por importantes que sejam não são mais suficientes. O contexto contemporâneo nos impõe a necessidade de aliarmos nosso dom e paixão ao conhecimento e informação a fim de que nosso ministério tenha um alcance maior do que normalmente teria.

 

CPIMW - Quais são os prós e contras dessa valorização aos cursos teológicos?

Pr. ABDRUSCHIN - Acredito que o principal perigo em se dar importância aos cursos teológicos é fazê-lo de forma exagerada. Neste caso, o perigo é o tecnicismo, ou seja, acreditar que um curso de teologia lhe dará tudo o que você precisa para ser um bom obreiro — é ver a teologia como um fim em si mesmo. Mas, por outro lado, há enorme perigo também em se dar ênfase apenas a um ministério pastoral, isentando-o da boa reflexão. Depois de 23 anos na docência teológica, e aproximadamente 15 como pastor, cheguei a uma conclusão: não consigo mais ver essas duas instâncias como dois mundos distintos e separados. Não acredito mais que a prática tenha predominância sobre a reflexão, e nem o contrário. Na verdade, eu diria que ser um bom pastor passa pela boa reflexão, e a boa reflexão só tem sentido quando desemboca em “missão”. Então, para mim, ser pastor é importante a fim de que eu continue a fazer teologia com os “pés no chão”, à luz da realidade; e ser teólogo é imprescindível para que minha prática seja bem direcionada e, assim, eu não me torne presa fácil desse “evangelho de consumo”, tão comum no evangelicalismo brasileiro contemporâneo.

 

CPIMW - Pode explicar a diferença entre um Curso de Bacharel em Teologia reconhecido pelo MEC e um livre, oferecido pelas denominações?

Pr. ABDRUSCHIN - Um “curso livre” (não reconhecido pelo MEC), por melhor que seja em termos de qualidade, só tem validade para a denominação que o reconhece. Ou seja, sua aplicabilidade se restringe aos interesses da igreja. Muitas denominações, por exemplo, só consagram pastores que possuem um curso desses. Entretanto, os “cursos livres” não são aceitos pelo MEC como pré-requisito para pós-graduações (lato-senso), mestrados e doutorados (stricto-senso). Ou seja, se você tiver um curso livre em teologia, e não possuir nenhum outro curso superior reconhecido pelo MEC, não poderia fazer uma pós-graduação, mestrado ou doutorado (a menos que tais cursos também sejam “livres”, o que para o MEC não significaria nada). Vale ainda ressaltar que mesmo os cursos de mestrado e doutorado, realizados em outros países, não têm validade para o MEC. Muitas pessoas dão excessivo valor a esses cursos, mas aqui no Brasil só passam a ter validade se forem convalidados por uma universidade brasileira, o que só acontece em casos específicos em que o curso realizado no exterior seja compatível com o ofertado no Brasil. Por exemplo: muitos cursos que são chamados de “doutorado” nos Estados Unidos, aqui no Brasil não passariam de uma pós-graduação lato-senso. Por outro lado, com um curso de teologia reconhecido pelo MEC, você está habilitado a fazer um curso na modalidade lato-senso (especialização) ou mesmo strito-senso (mestrado e doutorado). Além disso, muitas empresas que possuem “planos de carreira” acabam beneficiando os funcionários portadores de diplomas de curso superior, mesmo que seja em teologia. Finalmente, com um curso superior em teologia somado a uma pós-graduação, você pode atuar na área de ensino religioso ou mesmo em capelanias.

 

CPIMW - Agora, especificamente sobre os cursos do CEFORTE, pode explicar cada um aos nosso leitores (presencial, Internato, Modular e EAD)? Quais são os pré-requisitos para ser um aluno do CEFORTE?

Pr. ABDRUSCHIN - O CEFORTE dispõe de três modalidades presenciais: o curso externato é aquele que normalmente é ofertado semanalmente, de segunda à sexta, às pessoas que podem se deslocar todos os dias a um determinado polo; o curso modular também funciona em regime externato, mas normalmente sua periodicidade é mensal. Funciona bem para aqueles alunos que residem distantes de um polo, mas que preferem um curso presencial. Normalmente ele acontece em fins-de-semana, em regime intensivo; o internato funciona em regime “fechado”. Ou seja, o aluno normalmente mora na instituição e, além das disciplinas realizadas em sala de aulas, há uma carga-horária maior de atividades complementares e atividades extraclasse. Além disso, no internato o aluno tem uma experiência maior de convívio e interação com os colegas, o que é extremamente importante na formação; finalmente, o curso EAD (ensino à distância) ou E-learning pressupõe maior autonomia do aluno, e é feito via internet. Esse curso é indicado àqueles que residem distantes de um polo, e não possuem a disponibilidade para encontros presenciais. Os principais pré-requisitos para se tornar aluno do CEFORTE, em quaisquer modalidades, são: a) apresentar a documentação básica exigida (conforme consta no site do CEFORTE) e; 2) apresentar o histórico do ensino médio. É importante ressaltar que a data de conclusão do ensino médio precisa ser anterior à data de ingresso no curso de teologia do CEFORTE. Caso isso não seja observado, você poderá ter problemas caso queira convalidar seu curso mais tarde.

 

CPIMW - De um modo geral, o senhor acredita que o ensino teológico oferecido no Brasil atende as necessidades da demanda de pastores que têm surgido?

 

Pr. ABDRUSCHIN - Existem muitos cursos de teologia hoje no Brasil, normalmente ofertados por denominações preocupadas, sobretudo, com a formação de seus obreiros. Entretanto, muitas deixam a desejar em termos de qualidade dos seus cursos, por vários motivos. Cito apenas um: a exacerbada preocupação com a manutenção da visão denominacional (que em termos moderados é mais do que justo), faz com que se perca de vista a necessidade de adequação constante de sua proposta ao contexto sociocultural, também em constante mudança. O resultado, na maioria das vezes, são pastores excepcionalmente bem formados no que respeita à visão doutrinária da igreja, mas em grande medida alienados da realidade que os circunda. Ou seja, passamos a ter pastores formados para dentro (da estrutura) — normalmente pastores que “fazem carreira” em suas denominações —, mas que dificilmente se orientam para fora (em direção ao “mundo”). Vejo isso como um desserviço ao Reino de Deus! Defendo, ao contrário, uma formação com múltiplos focos: para cima (relacionamento com Deus); para dentro (a constante revisão de sua estrutura); para frente (formação de novas lideranças); para fora (relevância aos que estão fora dos círculos religiosos, inseridos na cultura circundante). Acredito que precisamos mais de pastores “para o mundo”, homens e mulheres que consigam tocar o coração dos “sem- (ou decepcionados com a) religião”, daqueles que poderiam ser denominados “ovelhas sem pastor”. Creio que o ensino teológico no Brasil prestaria um grande serviço ao Reino se formasse menos “burocratas da religião” e mais homens e mulheres que se inspirem no “Emanuel”: o “Deus com a gente”. 

 

ABDRUSCHIN SCHAEFFER ROCHA
Diretor Geral do Ceforte

 


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